Produção Científica: desafio no ensino médio

Lançamento do livro “Clonagem, Benefícios e Riscos” abre a discussão sobre a democratização do Acesso à Ciência a partir do ensino médio.

por Karla Bernardo Montenegro

O lançamento de um livro pode significar mais do que uma nova fonte de conhecimento e consulta. Pode abrir caminho para reflexão: a democratização do acesso à Ciência pode começar no ensino médio? A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, aposta que sim e trabalha na perspectiva de que educação em saúde é a melhor porta para estimular a reflexão científica. Nesta escola, a lógica do estímulo ao exercício da elaboração intelectual/científica está gerando bons frutos. O livro “Clonagem, Benefícios e Riscos”, recém-lançado pela editora Interciência, é o resultado da adaptação do trabalho de monografia realizado em 2002 da então aluna do curso técnico de histologia Danielle Cabral Bonfim, sob orientação do pesquisador do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Biossegurança da Escola Politécnica de Saúde (NUEBio), Silvio Valle. Esta é a primeira vez que um trabalho de monografia, desenvolvido na escola, é publicado em forma de livro e a primeira vez que no país que um livro na área de Biotecnologia é publicado por um aluno de nível médio.

O pesquisador da Fiocruz, Silvio Valle

Para Valle, o ponto forte do trabalho de Danielle Bonfim é “a fundamentação científica sólida, a atualidade do tema, a simplicidade na forma de escrever e a coragem de emitir opiniões sobre pontos tão controversos como a Clonagem Humana”, destacou.

Danielle Bonfim em palestra sobre Clonagem

A autora, Danielle Bonfim, sempre foi curiosa acerca das novas descobertas na área da Clonagem e desde que entrou para a Escola Politécnica criou o costume de guardar matérias, reportagens e entrevistas sobre o assunto: “Clonagem e células-tronco sempre foram temas que me interessaram. Na época da monografia, optei por Clonagem, com ênfase na Clonagem Terapêutica”, revelou. Segundo Bonfim, a parte mais difícil no processo de elaboração do livro foi a adaptação da linguagem, já que era preciso editar um texto de fácil leitura para o público não especializado.

No livro, conceitos e técnicas de clonagem são explicados através de ilustrações e informações atuais sobre os principais avanços da ciência nesta área. No prefácio, José Luis Telles, coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da Fiocruz, explica a importância da inserção destas definições na educação de crianças e jovens: “Ainda que tenhamos sérios obstáculos de toda ordem no sistema educacional brasileiro, é patente a necessidade dos conteúdos curriculares incorporarem as tendências assinaladas para este século, já que tal esforço resultará na ampliação do acesso ao estudo das ciências e da tecnologia como uma das estratégias de superação do quadro de desvantagem em relação aos índices de escolarização e de nível de conhecimento que apresentam os países desenvolvidos.”, destacou, o que concorda o biólogo e diretor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, André Malhão: “ Temos que dar oportunidade ao jovem de ter acesso ao dilema da divulgação científica. Podemos começar desmistificando o termo “cientista”. Quem está envolvido com pesquisa é o pesquisador. A rigor, todos nós temos a capacidade de fazer ciência, é uma capacidade cognitiva do ser humano”, destacou.


O diretor André Malhão na escola Politécnica Joaquim Venâncio .

Para Malhão, a publicação do livro da ex-aluna Danielle Bonfim é um exemplo do potencial de possibilidades que o curso proporciona “A escola tem como foco a geração de autonomia, de liberdade, de possibilidades de formação de profissionais capazes de se alçarem como dirigentes no seu sentido lato, não um dirigente como um gestor, gerente, e sim um dirigente no sentido de ator político no seu trabalho, sociedade, junto a sua família, para isso ele também tem que ter um domínio das pesquisas, das técnicas. No caso da Danielle, ela transformou seu trabalho de pesquisa em informação para a sociedade”, analisou.

Segundo a autora, a escola a instrumentalizou para o mundo acadêmico: “A Escola Politécnica abriu várias portas. Em primeiro lugar, pela formação sólida. O aluno sai de lá com o pensamento crítico apurado, aprende a desenvolver seus próprios projetos. A experiência de já ter passado pelo processo de elaboração de uma monografia certamente vai contribuir para a qualidade do trabalho que irei desenvolver na Universidade”, afirmou, revelando que no ano que vem, quando acabar a primeira fase dos estágios curriculares que está fazendo no curso de Biomedicina na UFRJ, irá se dedicar ao seu outro assunto de interesse: células-tronco. “Estou buscando uma bolsa para iniciar o projeto de meu próximo livro, no qual pretendo aprofundar minha pesquisa sobre este tema”, afirmou.

O pesquisador Silvio Valle lamentou o fato de não ter sido possível a entrada formal de Danielle em seu grupo de trabalho "Apesar de reconhecer a missão da Escola Politécnica, de formar profissionais com qualidade para o mercado de trabalho, não conseguimos absorvê-la em nosso grupo de pesquisa", comentou.

Escola Politécnica Joaquim Venâncio: Uma escola de jovens que vivem a Ciência


Márcio Rolo, Coordenador do projeto "Ciência e Cidadania"

Para o mestre em educação e coordenador do Projeto ”Ciência e cidadania”, Márcio Rolo, Foi a partir da década de 80, quando o movimento de democratização da saúde rompeu com o conceito restrito de saúde, que o Brasil deu o seu salto de qualidade “ Antes, a definição de “saúde” se restringia à cura da doença através da medicina. Depois do rompimento deste conceito, a saúde passou a ser encarada sob o aspecto da prevenção à doença. Este período ficou marcado pela transferência do paradigma biomédico para o sanitário”, explicou.

Na escola Politécnica da Fiocruz, o ensino médio está em sintonia com o atual conceito de saúde. Segundo Rolo, “A escola, que é vinculada ao Ministério da Saúde, trabalha sob uma ótica ampliada. Os alunos são estimulados a formarem uma visão crítica sobre a sua área de atuação. Nós buscamos a integralidade entre a função científica e a cultural.” André Malhão complementa “A diretriz que orienta esta metodologia é clara. O conhecimento holístico, filosófico pode estar articulado com os conhecimentos técnicos, já que a realidade não é fragmentada, é uma”, afirmou, criticando os atuais sistemas de capacitação em Recursos Humanos, que em sua maioria imprimem o olhares meramente operativos sobre o conhecimento, limitando os profissionais na medida que os direciona apenas para atender às exigências segmentadas do mercado de trabalho.

Tal liberdade de pensamento e produção pode ser observada na diversidade de temas escolhidos pelos alunos para os trabalhos de monografia, requisito básico para a conclusão do curso “Nós trabalhamos a pesquisa como princípio pedagógico. A monografia objetiva o amadurecimento do aluno na área científica. Não há restrições de temas já que nós consideramos que todas as formas de ciência são concepções culturais”, explicou Márcio Rolo.

Segundo o pesquisador Sílvio Valle, para os próximos anos, após a experiência de sucesso com a publicação do livro de Danielle Bonfim, o NUEBio pretende desenvolver novas publicações com alunos de ensino médio “ Esperamos continuar contando com o apoio da direção da Escola Politécnica de Saúde para desta vez ampliarmos as reflexões dos alunos sobre temas também importantes como alimentos transgênicos, biofármacos, engenharia de tecidos e até mesmo sobre os impactos da Bionanotecnologia na saúde humana”, afirmou, destacando que os pesquisadores que atuam no Núcleo de Ensino e Pesquisa de Biossegurança são profissionais que atuam ministrando aulas e cursos de Biossegurança para diversas outras Unidades da Fiocruz e possuem ampla experiência na produção acadêmica e editorial, o que faz com que suas aulas, cursos e projetos valorizem e incentivem os alunos para a produção e publicação de conhecimento nesta área.

Centro Colaborador da OMS

O conceito de educação articulada com a pesquisa e a cooperação técnica está visível até nas paredes da escola. Logo na entrada, um gigante painel informa “A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio é o Único Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a educação Técnica em Saúde”. No Relatório de Atividades da Fiocruz 2001/2004, vem a explicação: “Como reconhecimento de seu trabalho, a Escola Politécnica tornou-se Centro Colaborador da OMS já que participa ativamente nas políticas nacionais e internacionais de formação e de cooperação técnica em saúde”.

O professor Márcio Rolo aponta o trinômio: trabalho,ciência e cultura como a base pedagógica da escola.

O conceito de educação articulada com a pesquisa e a cooperação técnica está visível até nas paredes da escola. Logo na entrada, um gigante painel informa “A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio é o Único Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a educação Técnica em Saúde”. No Relatório de Atividades da Fiocruz 2001/2004, vem a explicação: “Como reconhecimento de seu trabalho, a Escola Politécnica tornou-se Centro Colaborador da OMS já que participa ativamente nas políticas nacionais e internacionais de formação e de cooperação técnica em saúde”.

Para o Coordenador Márcio Rolo, “Esta outorga traz a certeza de que estamos no caminho certo, isto é, assumir a pesquisa como princípio pedagógico. Espero que outras escolas possam também seguir esta experiência”, concluiu.

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Outras opiniões:

Quebra de Paradigmas
Parabéns a todos vocês pelo brilhante trabalho de equipe organizado.
Não é fácil quebrar paradigmas como vcs fizeram.
Que esta seja um obra pioneira, primeira de muitas outras...
Repito as palavras do Prof. André Malhão "A escola tem como foco a geração de autonomia, de liberdade, de possibilidades de formação de profissionais capazes de se alçarem como dirigentes no seu sentido lato, não um dirigente como um gestor, gerente, e sim um dirigente no sentido de ator político no seu trabalho, sociedade, junto a sua família, para isso ele também tem que ter um domínio das pesquisas, das técnicas."
E mais adiante: “A diretriz que orienta esta metodologia é clara. O conhecimento holístico, filosófico pode estar articulado com os conhecimentos técnicos... criticando os atuais sistemas de capacitação em Recursos Humanos, que em sua maioria imprimem olhares meramente operativos sobre o conhecimento, limitando os profissionais na medida que os direciona apenas para atender às exigências segmentadas do mercado de trabalho."
Ou seja, as palavras-chave são: autonomia, liberdade, espírito crítico, liderança, responsabilidade e um aspecto sempre esquecido: a inclusão da crítica aos atuais sistemas de capacitação em RH no país!
Batalhamos pela inclusão da Bioética no ensino fundamental e médio de nosso país, creio que nossa idéia vem ao encontro deste incrível trabalho promovido por todos Vocês mas concretizado pela obra desta dedicada aluna Danielle Bonfim. Fatos assim nos alegram e nos motivam a continuar na batalha que é neste país trabalhar com educação.

Andréa Planas
Diretora Centro de Estudos em Bioética e Direito SP


Olá, muito interessante o trabalho realizado. POis, o objetivo da obra é justamente levar a informação ao público em geral por um tema novo e ao mesmo tempo bastante polêmico.

Ilson Jr.
Estudante

A clonagem é um assunto que muitas peesoas querem aprender, por que isso mostra a evolução da ciencia e importancia dos assuntos.
A clonagem em geral significa a copia identica de um individuo.

João Roglin
Estudante

21/09/2007
Se fosse pra clonar coisas DEUS já tinha clonado.

Yasmim Agrício Nunes Lima
Estudante


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