Perguntas e respostas  sobre células-tronco de cordão umbilical com Dr. Luiz Fernando Bouzas, do INCa

Por Karla Bernardo Montenegro


Projeto Ghente - Qual a principal diferença entre um banco de sangue de cordão umbilical público e privado?

Luiz Bouzas - Um banco público não visa lucro. Visa ajudar quem precisa.Um banco privado visa o lucro, é um comércio.
O banco público pode ter uso aparentado e não aparentado. No primeiro caso, parentesco de primeiro grau com o recém-nascido. É utilizado quando há indicação médica para tal procedimento, no caso de um irmão que nasça e o sangue é compatível com o irmão doente, por exemplo. Nós colhemos o sangue, armazenamos e depois realizamos o transplante. Nos outros casos, as bolsas ficam disponíveis para quem precisar.
O banco privado é para uso autólogo, ou seja, do próprio recém-nascido, e exclui o seu uso por outra pessoa ,independente do grau de parentesco.

Ghente -A discussão acerca da ética do funcionamento dos bancos privados de células-tronco de cordão umbilical é característica do Brasil?
Bouzas - A França e a Espanha proibiram bancos privados. A Inglaterra está neste caminho, e os EUA começaram a criar a rede pública, depois do problema que começou a dar com o material vindo da rede privada. Acreditamos que o Brasil vá pelo mesmo caminho.

Ghente - E no caso do Hospital Albert Einstein, que descartou cerca de 4.000 bolsas que estavam criopreservadas quando migrou para a rede pública? O sangue era de baixa qualidade?
Bouzas - A equipe do Albert Einstein entendeu que a filosofia do banco público não é compatível com a do banco privado. Quando eles se associaram ao banco público eles resolveram encerrar as atividades do banco privado. Agora, ao doar o cordão para o hospital se está doando para a rede pública. Caso a família queira chamar a empresa privada, poderá fazê-lo também já que o hospital não oferece mais este serviço.

Ghente - Qual a vantagem do uso de células-tronco adultas doadas  de cordão umbilical em relação às células tronco adultas doadas da medula óssea?
Bouzas - O cordão umbilical  tem uma vantagem:Se recolhe o material, se faz a triagem, e ele é mantido congelado no banco.Na hora que se identifica no sistema que a genética é igual a do paciente, é só buscá-la, é muito rápido, e o que é melhor: apesar destas células serem adultas, elas não passaram por estímulos muito intensos, como as células de um adulto. São células adultas-jovens, melhor do que a dos doadores voluntários.

Ghente - Até quando uma unidade pode ficar congelada e ser considerada de boa qualidade para transplante?
Bouzas - Já existem células congeladas no INCA há mais de 16 anos. Elas podem ser mantidas por tempo indeterminado, estão em estado latente.

Ghente - No Rio de Janeiro, que hospitais públicos fazem a coleta?
Bouzas - O Carmela Dutra, o Pró Matre e Hospital Naval Marcílio Dias. Estamos em um processo onde nós treinamos a equipe do próprio hospital para que eles possam efetuar a coleta. Recebemos duas propostas de Hospitais de Juiz de Fora que querem o treinamento e também duas maternidades públicas no Rio de Janeiro.Vamos expandir este treinamento para muitas capitais do Brasil

Ghente - Que número será preciso chegar para que o Brasil atinja a auto-suficiência e não precise mais recorrer a bancos de sangue estrangeiros?
Bouzas - Quando o Brasil obtiver 40 mil unidades congeladas, não vai ser mais necessário pedir no exterior.

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- Artigo do Diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea, do Instituto Nacional do Câncer, Luís Fernando S. Bouzas. "Transplante de Medula Óssea em Pediatria e Transplante de Cordão Umbilical

- Veja.com: O que fazer com o cordão umbilical? - Coluna da pesquisadora Mayana Zats na Veja.com discorre sobre o armazenamento de células de cordão umbilical.