Células-tronco embrionárias: Uma chance para as pesquisas

Nova Lei de Biossegurança é sancionada pelo presidente da república, que apresentou sete vetos ao texto aprovado na Câmara. Aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias permanece.

Por Karla Bernardo Montenegro


A noite do dia dois de março de 2005 para muitos ficará marcada pela vitória do estado laico sobre a influência das convicções religiosas que historicamente vêm pontuando as decisões da sociedade brasileira. Em um esforço multidisciplinar, cientistas, médicos, biólogos, advogados, políticos, pacientes e diversas associações de familiares se uniram, persistiram e conseguiram convencer os parlamentares de que as pesquisas com células-tronco obtidas de embriões humanos trarão grandes benefícios para cerca de cinco milhões de brasileiros que estão com lesões físicas ainda irreversíveis ou que são portadores de doenças genéticas. Apesar das grandes perspectivas, o resultado da votação não agradou a todos. Além da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), parte da população não concorda que para salvar a vida de um paciente seja necessária a destruição de um embrião, mesmo que na fase de blastocisto(entre o quinto e sexto dia de vida, onde ainda não está formado o sistema nervoso), já que, este ato significaria eliminar uma vida em potencial. Veja aqui as opiniões sobre o tema e inclua a sua.

O novo texto da Lei de Biossegurança, sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prevê a liberação das pesquisas com embriões humanos no Brasil, a exemplo do que já acontece na maioria dos países europeus, como Dinamarca, Espanha, Finlândia, Reino Unido, Bélgica, Itália, Holanda, Suécia, entre outros. A utilização de embriões em pesquisa deverá obedecer a critérios legais, dentre eles: ser oriundos de clínicas de Reprodução Assistida e estar congelados há pelo menos três anos. Segundo especialistas, é nesta fase que o embrião começa a perder as suas características e a chance de se adaptar ao útero materno diminui. Para ter acesso a este material genético, pesquisadores terão que obter autorização por escrito dos genitores. A Lei proíbe a criação de embriões para fins industriais e de pesquisa e veta a comercialização de material genético humano para qualquer fim.

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Herbert e Hermano Viana, ao lado da paixão em comum: o Ultraleve FOX V 5. Família acredita na  recuperação do cantor a partir das novas pesquisas.

“Tenho certeza absoluta que a ciência está no caminho certo. Não sei em quanto tempo, mas digo sempre ao Herbert (Viana) que ele se aplique ao máximo na fisioterapia para manter suas pernas e seu corpo em condições de receber os avanços da medicina”.

Hermano Viana,
pai do músico Herbert Viana

“Somente quem não entende o processo de reprodução assistida ou de quais doenças estamos falando é capaz de ficar contra este avanço ”.

Andréa Bezerra de Albuquerque,
Movimento em Prol da Vida.

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Breve retrospectiva

Leia um resumo dos acontecimentos que marcaram a campanha pela aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias.

Início do ano de 2003. Muito se falava sobre a Lei de Biossegurança, mas o foco estava sempre na discussão sobre os organismos geneticamente modificados (OGMs). Pouco se debatia sobre o artigo 5º, que tratava da liberação das pesquisas utilizando células-tronco embrionárias. O primeiro veto às pesquisas se deu quando o relatório do então ministro Aldo Rebelo foi derrotado na Câmara dos Deputados por pressão da bancada religiosa na Câmara. Neste momento, formou-se um esforço de convencimento: políticos favoráveis às pesquisas agendaram audiências públicas e buscaram apoio em seus partidos; pesquisadores realizaram palestras, participaram de Comissões Técnicas, emitiram pareceres; as ONGs pró –pesquisas organizaram encontros em Brasília para tentar convencer parlamentares, lançaram sites na internet e escreveram vários manifestos pedindo a liberação das pesquisas. Em função da abrangência social e da mobilização da opinião pública, aos poucos o assunto “Células-Tronco” começou a fazer parte das publicações especializadas em genoma humano e ciência, como o debate proporcionado pelo Portal do Projeto Ghente. A partir do segundo semestre de 2004, o assunto ganhou a grande imprensa, com matérias na TV, rádio, jornais e revistas.

No Senado, o tema passou por várias comissões até finalmente ser votado em outubro de 2004. Com o resultado positivo da votação, o texto voltou para Câmara dos Deputados. A expectativa pela votação era grande: enquanto agricultores precisavam de uma resposta positiva para ver liberada a comercialização da safra transgênica cultivada no ano, milhares de pacientes também tinham pressa, eles precisavam ter certeza da liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias para continuarem a ter a esperança da cura para os seus males, muitos deles, degenerativos.

Março de 2005. Após muitas explicações, palestras, seminários, apelos, encontros, idas e vindas para Brasília, as pesquisas com células-tronco foram liberadas e desta forma a comunidade científica recebeu o aval da Câmara para caminhar junto com o mundo nas pesquisas que prometem revelar grandes possibilidades de cura.


A força das famílias

Na mobilização pró-aprovação das pesquisas com células tronco, os pais de dois músicos consagrados se destacaram: Hermano Viana, pai de Herbert Viana e Dejalma Sant´Ana, pai de Marcelo Yuka. O acidente aéreo que deixou o vocalista e guitarrista do grupo Paralamas do Sucesso, Herbert Viana, paralítico em 2001 fez com que o brigadeiro aposentado Hermano Viana se tornasse um estudioso sobre células-tronco "Desde o acidente com o Herbert, passamos a nos interessar por tudo que possa levá-lo a ter de volta seus movimentos completos. ”, afirmou. Além do pai, toda família passou a dedicar boa parte do tempo buscando alternativas e esperanças. O mesmo aconteceu com a família do músico Marcelo Yuka, ex - baterista e compositor do Grupo O Rappa, atualmente na banda FURTO. Também no ano de 2001, nove tiros atingiram o cantor durante um assalto, deixando-o paraplégico. Seu pai, Dejalma Sant´Ana precisou recorrer a um psicólogo para entender e suportar a tragédia “Eu fui a única pessoa da família que recorreu à terapia. Sinto que todos acreditam que em breve, o Marcelo vai poder voltar a andar. A ficha ainda não caiu direito para nós”, analisa.

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Marcelo Yuka no aniversário de seu irmão Pedro(em primeiro plano). Ele se inscreveu na  experiência de reabilitação com células-tronco na USP.

“Os religiosos contrários às pesquisas deveriam considerar que ao utilizar um embrião congelado para pesquisar um meio de salvar vidas estamos promovendo um ato de salvação e não de destruição: O embrião vai continuar tendo vida através da cura de outra pessoa”.

Dejalma Sant´Ana ,
pai do músico Marcelo YuKa



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Os dois pais se conheceram em uma manifestação no centro da cidade do Rio de Janeiro, onde a ONG Movitae (Movimento em prol da vida) tentava chamar a atenção da população sobre a importância das pesquisas com células-tronco embrionárias . “ O grupo tentava recolher assinaturas para enviar ao Senado. Eu já tinha ouvido falar sobre células-tronco através de uma amiga do meu filho que é médica, mas foi esta manifestação que me deu a exata dimensão da dificuldade que enfrentaríamos para chamar a atenção da população para este assunto tão importante. As pessoas estavam apressadas, desinteressadas ....”, observou Dejalma.

Depois deste dia, o irmão mais novo de Yuka, João, de 10 anos , escreveu um apelo aos parlamentares pedindo a liberação das pesquisas.” Foi uma ação espontânea. Ele escreveu o que estava sentido. Seguindo este impulso, enviei a carta para o Congresso através de email”,conta. Marcelo Yuka, ,confiante na terapia celular, já se inscreveu para participar da experiência de reabilitação com células-tronco no Instituto de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Apesar das dificuldades, munido de informações e argumentos emocionados, Hermano Viana, pai de Herbert Viana, fez ainda mais. Procurou os senadores Ney Suassuna e José Maranhão com o objetivo de sensibilizá-los sobre a importância de se permitir o estudo das células-tronco embrionárias.” Para a minha felicidade, ambos se mostraram a favor das pesquisas”, afirmou. Com o ânimo renovado, Hermano redigiu carta ao deputado Renildo Calheiros e chegou até a posar ao lado do filho Herbert para a capa de uma revista semanal que publicou a matéria principal sobre a polêmica em torno das células-tronco embrionárias .

Na opinião de Dejalma, “Os religiosos contrários às pesquisas deveriam considerar que ao utilizar um embrião congelado para pesquisar um meio de salvar vidas estamos promovendo um ato de salvação, e não de destruição: O embrião vai continuar tendo vida através da cura de outra pessoa”, reflete.

* As fotos do Marcelo Yuka e do Hermano Viana foram cedidas do arquivo pessoal das famílias e foram autorizadas para a divulgação no Portal Ghente.


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