Esperança Renovada

O projeto de lei sobre pesquisas com células-tronco, que acaba de ser aprovado pela câmara dos deputados, mostra uma confusão entre os conceitos de clonagem reprodutiva, clonagem terapêutica e terapia celular com células-tronco (que não é sinônimo de clonagem terapêutica).

Antes da votação do texto definitivo é fundamental que nossos parlamentares entendam que a terapia celular com células-tronco, incluindo as embrionárias, podem representar a esperança de tratamento para milhões de brasileiros afetados por doenças genéticas (que atingem mais de 5 milhões de pessoas, a maioria crianças e jovens) que sofrem de doenças comuns como a diabetes, o mal de Alzheimer ou a doença de Parkinson ou que estão incapacitados porque sofreram acidentes.

A clonagem reprodutiva humana que seria a tentativa de produzir uma cópia de um indivíduo é condenada por todos. Deve realmente ser proibida! Por outro lado a clonagem terapêutica ou técnica de transferência de núcleo é apenas um dos métodos para obter-se células-tronco para terapia celular ou medicina regenerativa. Aliás, é o mais complexo e de uso mais limitado como veremos adiante.

O que são células-tronco?
As células-tronco são células progenitoras que mantêm a capacidade de diferenciar nos inúmeros tecidos (sangue, músculos, nervos, ossos etc..) do corpo humano.

São totipotentes quando tem a capacidade de diferenciar-se em qualquer um dos tecidos humanos e pluripotentes quando conseguem diferenciar-se em alguns mas não em todos os tecidos humanos.

Como obtê-las?
Elas podem ser obtidas pela técnica de transferência de núcleo ou Clonagem terapêutica, de tecidos adultos (medula óssea, sangue etc..), de cordão umbilical e de embriões.

Qual é a vantagem e as limitações de cada uma dessas técnicas para terapia celular?
A clonagem terapêutica ou transferência de núcleo nada mais é do que um aprimoramento das técnicas hoje existentes para culturas de tecidos que são realizadas há décadas. A grande vantagem é que ao transferir o núcleo de uma célula de uma pessoa (por exemplo pele) para um óvulo sem núcleo, esse novo óvulo, tornar-se-ia potencialmente capaz de produzir qualquer tecido, daquela pessoa, em laboratório. Isto abriria perspectivas fantásticas para futuros tratamentos porque hoje só consegue-se cultivar em laboratório células com as mesmas características do tecido onde foram retiradas. A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição se o doador fosse a própria pessoa. Seria o caso por exemplo de reconstituir a medula em alguém que se tornou paraplégico após um acidente ou para substituir o tecido cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto. Esta técnica além de difícil tem uma grande limitação: não serviria para portadores de doenças genéticas.

Células-tronco em indivíduos adultos

Existem células tronco em vários tecidos (como medula óssea, sangue, fígado) de crianças e adultos. Entretanto a quantidade é pequena e não sabemos anda em que tecidos são capazes de se diferenciar.

A maior limitação dessa técnica, o auto-transplante, que tem mostrado resultados promissores em pessoas com insuficiência cardíaca, é que ela também não serviria para portadores de doenças genéticas.

Células-tronco em cordão umbilical e placenta
O sangue do cordão umbilical e da placenta é rico em células-tronco mas também não sabemos ainda qual é o potencial de diferenciação dessas células em diferentes tecidos. Se as pesquisas mostrarem que células-tronco de cordão umbilical serão capazes de regenerar tecidos ou órgãos, esta será sem dúvida a mais importante fonte para obtenção de células-tronco. Teríamos que resolver então o problema de compatibilidade entre as células-tronco do cordão doador e o receptor. Para isto será necessário criar, com a maior urgência bancos de cordão públicos. Quanto maior o número de cordões existentes em um banco maior a chance de achar um compatível.

Células-tronco embrionárias
Se as células-tronco de cordão não derem os resultados esperados a alternativa será o uso de células-tronco embrionárias, que são certamente totipotentes. Não se trata de produzir embriões para essa finalidade mas de utilizar aqueles que são descartados em clínicas de fertilização. Células obtidas de embriões de má qualidade, que não teriam potencial para gerar uma vida se fossem inseridos em um útero, mantêm a capacidade de gerar linhagens de células-tronco embrionárias e portanto de gerar tecido. Em resumo, é justo deixar morrer uma criança ou um jovem afetado por uma doença neuromuscular letal para preservar um embrião cujo destino é o lixo? Um embrião que mesmo que fosse implantado em um útero teria um potencial baixíssimo de gerar um indivíduo? Ao usar células-tronco embrionárias para regenerar tecidos em uma pessoa condenada por uma doença letal, não estamos na realidade criando vida? Isso não é comparável ao que se faz hoje em transplante quando retira-se os órgãos de uma pessoa com morte cerebral (mas que poderia permanecer em vida vegetativa)? A maioria dos países da comunidade Européia, o Canadá, a Austrália, o Japão e Israel aprovaram pesquisas com células embrionárias de embriões até 14 dias. Essa é também a posição das academias de ciência de 63 países, inclusive a brasileira. É fundamental que a nossa legislação também aprove estas pesquisas porque elas poderão salvar inúmeras vidas!

Mayana Zatz.
Coordenadora do Centro de estudos do Genoma Humano(USP)