"Interesses Econômicos também estão em jogo na discussão sobre as células-tronco".

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O Senador e doutor em Medicina Tropical,Tião Viana em entrevista exclusiva ao Portal Ghente explicou a sua posição contrária ao uso de embriões em pesquisa , ofereceu soluções para acabar com o impasse entre a igreja e os cientistas e chamou a atenção para o grande interesse econômico que está por trás desta discussão. Segundo Tião Viana, laboratórios estão fazendo grande pressão com o objetivo de acelerar a corrida pelo patenteamento de técnicas e processos envolvendo embriões humanos.
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Por Karla Bernardo Montenegro

Projeto Ghente - Como médico,qual a sua opinião em relação ao uso de células- tronco embrionárias?
Tião Viana - Sou contrário e acho que os parlamentares deveriam proibir a prática da fabricação de embriões apenas com a finalidade de extrair as suas células-tronco. Sou contrário também ao congelamento de embriões.

PG - O que o senhor diria às famílias de pacientes que estão esperançosos com promessa de "fabricação" de órgãos a partir das células embrionárias?
Tião Viana - Como médico, sou solidário às pessoas que estão doentes. Acho que os cerca de 14 milhões de pessoas que aguardam um transplante merecem uma resposta. Trata-se de um assunto complexo, com muitas faces. É importante dizer que as pesquisas utilizando embriões ainda estão no começo, mas tenho uma proposta para resolver parcialmente esta questão.

PG - Qual seria a proposta?
Tião Viana - Com o intuito de não paralisar as pesquisas científicas, sugiro que os embriões que estão congelados por mais de três anos nas Clínicas de Reprodução Assistida sejam doados para pesquisa caso a família concorde e assine um documento liberando o uso dos embriões para este fim. Entre descartá-los (os embriões perdem a sua utilidade com o passar dos anos) e doá-los para a pesquisa é melhor que se doe para pesquisa.

PG - O Sr acha que as famílias iriam concordar?
Tião Viana - Antes de mais nada é preciso ter um rigor ético na relação médico-família. Este comportamento deve vir desde a primeira visita do casal à clínica de Reprodução Assistida. O médico deve dar todas as informações sobre a técnica de fertilização a ser utilizada e deve possuir um termo de consentimento dos pais que diga ,entre outras coisas,que o casal está ciente de que poderiam , por exemplo, adotar uma criança ao invés de recorrer à fertilização.

PG - Com o tempo desapareceriam os embriões congelados?
Tião Viana - Esta é a idéia. Com a emenda que fiz no PL de Reprodução Assistida, só poderão ser implantados na mulher embriões "in vivo", o Brasil acabaria com os cilindros de embriões congelados.

PG - Na sua opinião um embrião pode ser considerado ser humano?
Tião Viana- É difícil conceituar o ser humano. Como não considerar o embrião e o feto como seres humanos? Esta questão é tão complexa que mundialmente ainda se discute sobre o referencial para marcar o início da vida humana. Quanto aos embriões, quem tem mais direito à vida? O embrião que estaria protegido da destruição ou a pessoa que está sofrendo e precisa de um órgão? Gosto de citar uma frase da cientista Eliane Azevedo: "O limite moral da Ciência deve ser o da dignidade Humana".


PG - Qual seria a solução para este impasse?
Tião Viana - É preciso se basear em princípios e respeitar a pluralidade, nunca esquecendo dos bilhões de dólares que estão envolvidos através do lobby das indústrias farmacêuticas. Os grandes laboratórios estão fazendo pressão com o objetivo de acelerar a corrida pelo patenteamento de técnicas e processos envolvendo embriões humanos. A sociedade organizada tem direito a se pronunciar sobre este assunto e intervir nas decisões da ciência assim como a ciência também interfere na vida das pessoas.

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"Com o intuito de não paralisar as pesquisas científicas, sugiro que os embriões que estão congelados por mais de três anos nas Clínicas de Reprodução Assistida sejam doados para pesquisa caso a família concorde e assine um documento liberando"

Senador Tião viana

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PG - O Brasil está muito atrasado nesta discussão?
Tião Viana - Não. A maioria dos países ainda está discutindo o assunto. Nos Estados Unidos nove estados proíbem radicalmente a utilização de células-tronco embrionárias. A França após enfrentar questionamentos jurídicos sesolveu proibir todod os tipos de clonagem. A Austrália agora que está começando a avançar na discussão. A Inglaterra voltou atrás na sua política de total abertura.A Espanha só libera a utilização de embriões que estão congelados no mínimo por dois anos.
Apresentei para a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB) um projeto criando o Comitê Nacional de Bioética para as Ciências da Vida , nos moldes do que existe em Portugal e na França.Segundo o projeto, o Congresso não seria mais o único responsável pela decisão de assuntos desta natureza, haveria um regulador destas matérias, uma espécie de conselho consultivo. A CNBB aprovou e já encaminhou o projeto para a Presidência da República para ser analisado.