Prêmio Nobel destaca a importância dos aspectos éticos na Ciência

Por Karla Bernardo Montenegro

O Projeto Ghente acompanhou a palestra oferecida pelo geneticista britânico John Sulston, um dos líderes do Projeto Genoma Humano, para uma platéia de especialistas na área de genética. Sulston foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2002 . O cientista falou sobre Genoma, Patentes, Testes Genéticos,Pesquisas com Células-Tronco e a Ética envolvendo pesquisa com seres humanos.

O geneticista John Sulston ,que esteve no Rio de janeiro no final do mês de junho, começou seu discurso com uma denúncia: "Grande parte da ciência mundial está refém dos interesses econômicos de grandes laboratórios, o que limita as pesquisas e conseqüentemente piora a saúde da população". Com esta afirmação, Sulston, um dos líderes do Projeto Genoma Humano,manifestou sua preocupação com o rumo da Ciência que, na sua opinião, não pode parar em função da necessidade cada vez maior da obtenção de lucro nos setores da saúde.

Para Sulston, o conhecimento gerado na área da Saúde Pelo PGH está disponível gratuitamente para todos e deve ser tratada como bem comum "O PGH é um bem da humanidade. A Propriedade Intelectual deve se restringir à invenção criativa do homem e não aos recursos naturais. A seqüência do genoma é uma descoberta e não uma invenção.Como seria hoje se os dados do PGH estivessem privatizados?" A razão para esta afirmação é pragmática "Todos tem que ter acesso às informações geradas pela Ciência "O lucro pode levar a algumas curas, mas não a todas", explicou. Sulston lembrou que a Farmacogenética,a Terapia Gênica,os Diagnósticos Genéticos e todo o conceito de Medicina preventiva são conseqüência das primeiras informações do PGH.

No caso específico do Brasil, o cientista lembra que doenças típicas de países ainda em desenvolvimento como malária , pneumonia e tuberculose , por exemplo, continuam negligenciadas já que não há interesse dos países ricos no financiamento da pesquisa nesta área. "O papel do Brasil deve ser o de não aceitar que apenas o interesse dos países ricos prevaleça.Um dos caminhos é o fortalecimento da pesquisa pública, o que democratiza o acesso aos benefícios", sugere.

Com relação às Leis de Patente, Sulston é taxativo" Não sou contra as patentes,mas sou contra o abuso.Sou a favor do patenteamento do desenvolvimento de Kit para diagnóstico de doenças . Nunca patenteamento de sequenciamento humano. A patente deve funcionar como um contrato entre o inventor e a sociedade, os benefícios devem ser proporcionais", afirma. "Hoje em dia não é mais possível patentear material genético na União Européia. Infelizmente não posso dizer o mesmo dos Estados Unidos", informa.

Outro ponto polêmico abordado na palestra foi o uso da informação genética . Para o cientista, todo o indivíduo deve ter livre arbítrio no que se refere ao seu patrimônio genético, mas adverte " É fundamental a existência de leis que protejam a identidade genética dos indivíduos. Se não tivermos cuidado com esta confidencialidade a discriminação genética poderá se tornar a discriminação racial do século XXI.",alerta. Sulston informa que existe um Projeto de Lei no Congresso Americano que proíbe discriminação genética no trabalho . Quanto a Grã Betanha, a discussão está voltada para impor limites às seguradoras. No Brasil , ainda não há legislação que aborde o uso e remessa de material genético humano.

Quando o Projeto Ghente, através do Coordenador adjunto, Wim Degrave perguntou a opinião de Sulston sobre a utilização de células-tronco embrionárias e o conceito do início da vida , o cientista opinou:

-O meu ponto de vista é o de que a vida vem antes da morte.Não existe um momento específico para o começo da vida. Temos que deixar o dogma de lado e entender o que vai ser bom para o ser humano e criar leis a partir desta análise. Não dá para dizer quantas células são necessárias para definir um indivíduo. Na Grã Betanha , é permitido o uso de embriões para a viabilidade da Clonagem terapêutica, mas existem várias formas de controle sobre este trabalho. Na minha opinião o Brasil deveria permitir a Clonagem Terapêutica por que é preciso ter união, pensar sobre os ideais humanos para que haja uma saída universal para a cura das doenças. É preciso uma organização internacional com o apoio da Organização das Nações unidas(ONU) para regular esta questão.