“O Brasil é o campeão do mundo com relação à diversidade de aplicações clínicas alternativas utilizando células-tronco adultas”.

O médico Ricardo Ribeiro dos Santos conversa sobre o estado da arte da terapia com células-tronco e destaca a supremacia do Brasil nesta área.

Por Karla Bernardo Montenegro


O médico Ricardo Ribeiro dos Santos em seu laboratório no Centro de Pesquisa Gonçalo Moniz - Fiocruz/BA

A afirmativa é das mais animadoras. E o atual investimento financeiro e intelectual também. Cerca de 1200 pacientes estão participando do Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias, um esforço de diversas unidades de saúde no país unidas pelo desenvolvimento da terapia celular. Pacientes com doença de Chagas e outros três tipos de cardiopatia já estão sentindo a melhora proporcionada pela nova terapia.  Dentro de um ano, os pesquisadores dirão ao SUS se a técnica é eficaz e pode ser adotada como método terapêutico de rotina, beneficiando a população brasileira e proporcionado ao SUS uma economia de cerca de R$ 500 milhões por ano com transplantes, internações, cirurgias e re-internações de pacientes com doenças do coração.
O resultado do empenho nesta área se revela também na descoberta de novas fontes potenciais de extração de células-tronco, como o tecido adiposo e o dente-de-leite, os mais recentes estudos experimentais realizados no Brasil. Um dos responsáveis por esta boa notícia é o médico, coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz - Bahia, Ricardo Ribeiro dos Santos. Nesta entrevista, este especialista, um entusiástico sobre o potencial das células-tronco adultas, conversa sobre o estado da arte da técnica, fala sobre a falta de funcionalidade da Lei de Biossegurança, revela a baixa relação custo-benefício do congelamento de células do cordão umbilical e destrincha as novidades numa das áreas mais promissoras da ciência na atualidade.

Ghente - Qual o estado da arte da técnica utilizando células-tronco adultas?
Dr.Ricardo Ribeiro - O Brasil, em relação ao mundo, está na frente. É o país com a maior diversidade de aplicações clínicas alternativas utilizando células-tronco adultas. Os Estados Unidos lideram a pesquisa apenas na área de doenças auto-imunes, estudo que já é feito no Brasil por médicos de Ribeirão Preto, São Paulo. O Japão trabalha com terapia celular no fígado, o que nós já realizamos com sucesso aqui na Bahia. Sobre este trabalho, Já foram feitas aplicações de células-tronco em 18 pacientes que estão na fila de transplante com doença crônica de fígado. O objetivo é melhorar o estado geral do paciente, melhorando a qualidade de vida. Este paciente, se não receber o transplante em dois anos, morre, e a maioria morre na fila. Estamos tentando melhorar a qualidade de vida destas pessoas que estão na fila para ver se há melhora de sobrevida. Até agora o método demonstrou que a terapia não produz efeitos colaterais e não piora os pacientes. Estamos verificando se há melhora.
O maior destaque atualmente é com relação às cardiopatias. Recentemente completamos o primeiro estudo, na Bahia, com a aplicação clínica da terapia com células-tronco para pacientes com Doença de Chagas em 30 pacientes. O resultado foi animador. A sobrevida foi praticamente total, e a qualidade de vida destas pessoas melhorou muito, porém , em ciência, não basta se ter a impressão que o resultado é bom. É preciso comprovação total. Com o apoio do Ministério da Saúde foi aberto um novo grupo, agora incluindo outras cardiopatias, com 300 pacientes. Este é o maior estudo randomizado- com a participação de várias unidades de saúde- e duplo cego (não se sabe quem está recebendo as células)de células-tronco no mundo no mundo: Chama-se” Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias”. O coordenador geral é o médico Antônio Carlos Campos de Carvalho, da UFRJ, eu coordeno a parte de Doença de Chagas, Infarte Agudo é Coordenado pela equipe do Pró-Cardíaco(RJ), Infarte crônico pela equipe do INCor(SP)e cardiopatia dilatada não chagásica é de responsabilidade do Instituto de Cardiologia de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.Dentro de dois meses todos os centros envolvidos vão entrar em operação e no término de um ano, o trabalho chegará ao fim e nós poderemos responder ao SUS se a técnica é eficaz e pode ser adotada como método terapêutico de rotina. Além das pesquisas envolvendo doenças do coração, é importante destacar o trabalho que está sendo realizado na PUC/RS. Os pesquisadores de Porto Alegre estão conseguindo ótimos resultados com relação ao tratamento de Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Ghente - O que há de novo em relação às fontes de extração de células-tronco adultas?
Ribeiro - Começamos  a trabalhar aqui na Bahia, com células-tronco de tecido adiposo para correção de nervos periféricos secionados e para reparo de lesões agudas traumáticas de medula. Devemos estar com os protocolos submetidos à Comissão de Ética local e à CONEP no próximo mês e até o meio do ano deveremos estar começando a aplicação em pacientes. Em caráter experimental, estamos trabalhando com células de dente- de- leite também. A polpa do dente de leite tem um potencial como célula-tronco  muito bom. Estamos em fase de pesquisa para entender e controlar todos os mecanismos. É uma possibilidade promissora.

Ghente - Como está a receptividade dos pacientes com relação à terapia com células-tronco? Por ser um procedimento novo, há resistência?
Ribeiro - A demanda por pacientes que querem se submeter à terapia com células-tronco é muito superior a nossa possibilidade de realizar os transplantes. Como a terapia celular é experimental, o paciente não arca com os custos. Nós podemos fazer porque estamos em um hospital internacional, o São Rafael e temos o respaldo da Fiocruz. Juntos, eles pagam os custos da terapia em fígado. Os médicos que estão trabalhando nesta pesquisa não recebem honorários. O mesmo acontece em relação ao Hospital Santa Isabel, que é um hospital beneficente aqui na Bahia. Esta instituição está financiando a terapia na doença de Chagas e outras cardiopatias.

Ghente - Quanto custa realizar uma terapia com células-tronco?
Ribeiro - Para pacientes com doença de Chagas, por exemplo, cerca de 15 mil reais por ano, com medicação incluída.

Ghente - Especificamente falando de sua equipe, na Bahia, da pesquisa básica para o procedimento cirúrgico em doença de Chagas , passaram-se apenas cinco anos. Este é um prazo muito pequeno para os parâmetros da Ciência. A que fatores o senhor atribui este “sucesso”? 
Ribeiro - Nós desconhecíamos que estas células tinham o potencial nelas mesmas, revelando um  potencial terapêutico importante. Como trabalhamos com terapia extraindo células do indivíduo e re-introduzindo as células nele mesmo, o risco no procedimento é pequeno. Outro fator importante foi o financiamento da FINEP e do Governo da Bahia, que considerou células-tronco como prioridade de Estado. Nós recebemos seis milhões de reais para montar um Instituto de Terapia celular na Bahia. O Hospital São Rafael disponibilizou também recursos para montar lá ,naquele hospital, um centro de terapia celular clínica.

Ghente - Qual a sua avaliação dos pesquisadores brasileiros?
Ribeiro - Estamos muito bem na parte clínica, mas ainda falta muito na área da pesquisa básica. É preciso mais investimento.

Ghente - Atualmente, quais são os riscos para o paciente que se submete à terapia com células-tronco adultas?
Ribeiro - O transplante com células extraídas do próprio paciente e re-injetadas nele mesmo  não oferece risco.  Quando se fala de células cultivadas, de longa duração, tudo muda.Este tipo de procedimento requer a manutenção de um controle genético muito rígido, pela possibilidade destas células adultas se transformarem em tumores. É por isso que estamos montando um grande centro de Citogenética no 6º programa de terapia celular, de última geração, para monitorar estas células. Outro fator de risco é a idade avançada. No paciente idoso, como ele é mais susceptível a câncer, é preciso monitorar se as células-tronco não estão promovendo um desequilíbrio. Para o paciente jovem, não há este risco, mas no indivíduo idoso, o cuidado tem que ser maior. Nossa pesquisa nesta área ainda está no início, daí o investimento. Estamos estudando drogas, hormônios celulares que possam substituir o transplante. São hormônios secretados pelas próprias células-tronco que vão estimular a migração de células, estimular o reparo. Já existe um grupo clínico submetido a este estudo.

Ghente - Quantas pessoas estão se dedicando ao estudo de células-tronco na Bahia?
Ribeiro - São 86 pessoas. É importante destacar que todos os médicos que trabalham na pesquisa não recebem nada, e mesmo assim é crescente o interesse por esta área. Por este motivo, estamos formatando uma pós-graduação em medicina regenerativa no Hospital São Rafael, bipartida com a FIOCRUZ. Vou para a Itália (país-sede do Hospital São Rafael)  para acertar os últimos detalhes desta parceria e a nossa estimativa é que as primeiras turmas já comecem em 2007.

Ghente - Quais são as respostas que ainda precisam ser dadas com relação à terapia com células-tronco adultas?
Ribeiro - A terapia com célula-tronco não é como um medicamento que se visualiza a dose-efeito. Esta é uma terapia à la carte. Cada medula é única e a resposta de cada paciente também é única. Uns respondem bem, outros muito bem, outros mal. Por quê? Ainda não sabemos, por exemplo, qual é a melhor célula para ser isolada. Ainda não sabemos também quantas células são necessárias para um transplante. Ainda existem muitas perguntas para serem respondidas através do estudo clínico.

Ghente - E no que se refere à terapia com células-troco embrionárias?
Ribeiro - No mundo ainda não há aplicação de terapia com células-tronco embrionárias. Enquanto estas estiverem abrindo possibilidade de geração de tumor, nenhuma equipe irá trabalhar com elas em pacientes, apesar do potencial terapêutico teórico muito bom. Com a demonstração da fraude na pesquisa do sul coreano Woo-suk Hwang, que trabalhou com construções interessantes como a transferência nuclear e a chamada clonagem terapêutica,    ainda não se sabe muito sobre esta possibilidade de terapia. O que se comprovou é que não é tão fácil quanto ele descreveu , mas esta não pode ser afastada como uma possibilidade terapêutica . Por problemas de fraude e pela grande possibilidade de geração de tumores, a terapia com células-tronco embrionárias não está sendo praticada no mundo. Nós trabalhamos com células-tronco embrionárias em camundongos, visando à pesquisa. Não é permitido no Brasil o trabalho com células-tronco embrionárias humanas, principalmente em transferência nuclear, o que nós estamos fazendo em animais.

Ghente- A aprovação da Lei de Biossegurança foi um avanço nesta área?
Ribeiro- De acordo com esta Lei, células humanas poderão ser trabalhadas experimentalmente com células isoladas há pelo menos três anos de um embrião que está congelado , mas isso não vai resolver nada. O máximo que pode ser feito é a derivação de linhagens e a realização de trabalhos experimentais com elas. O aproveitamento em pacientes é zero, porque não se pode injetar em humanos. Do ponto de vista prático, não vai resultar em nada nos próximos quatro a cinco anos, já que a Lei não permite avançar. Para aplicação em pacientes, será preciso passar outra Lei.

Ghente - Outro método de obtenção de células-tronco é através do cordão umbilical. O senhor aconselharia uma mãe a guardar -criopreservar- o sangue do cordão umbilical ao dar à luz?
Ribeiro - Não. Está provado que o custo-benefício de se congelar o cordão umbilical é baixo. Para a maioria da população brasileira, não vale a pena, já que ter o sangue congelado não é seguro de vida. Este material só pode ser utilizado em uma criança que pese no máximo 40 kg e o aproveitamento é raro, só no caso de leucemia ou alguns tumores raros. O banco público de cordão umbilical tenta guardar o maior número de células possível, por isso considero a relação custo-benefício desfavorável principalmente porque a todo momento surgem novas possibilidades terapêuticas.

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