Cientistas promovendo Biotecnologia

Cientistas ocupam cargos estratégicos em agências de fomento e instituições de pesquisa para incentivar a pesquisa estratégica e tentar reverter a distância histórica entre ciência e sociedade.

Por Karla Bernardo Montenegro


Respectivamente Wim Degrave, Jerson Lima Silva e Carlos Morel

Jerson Lima Silva, bioquímico, diretor Científico da FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), Carlos Morel, médico, Coordenador Científico do CDTS (Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz) e Wim Degrave, químico, Pesquisador Titular e gerente do Programa de Desenvolvimento Tecnológico de Insumos para a Saúde – PDTIS, da Fiocruz. Eles têm muito em comum além do fato de serem grandes cientistas com importantes trabalhos publicados no Brasil e no Mundo: No dia-a-dia do trabalho eles não perdem de vista duas metas: Estimular a pesquisa estratégica no Brasil para gerar novos produtos indispensáveis para a saúde pública e aproximar a ciência da sociedade, diminuindo o abismo que separa o conhecimento científico daqueles que os utilizam.

A FAPERJ no ano de 2004 destinou 130 milhões de reais para o financiamento da pesquisa no Estado do Rio de Janeiro. Segundo o Diretor Científico da Agência de Fomento, Jerson Lima Silva, este foi o recorde de recursos empregados no setor “O Rio de Janeiro é um importante pólo de pesquisa, desde a pesquisa básica até a aplicada. Uma agência de fomento tem que saber identificar este potencial e avaliar os projetos observando dois aspectos: valor agregado como acervo intelectual e os resultados práticos para a sociedade”, afirma. Um dos resultados deste olhar focado na produção científica é a formação da pioneira Rede de Proteoma, um dos projetos de ponta que tem a FAPERJ como agência de fomento ”O Rio de Janeiro saiu na frente e montou uma respeitadíssima rede de Proteoma, que se tornou um exemplo de grupo de excelência, como a rede de Genoma em São Paulo, com a FAPESP“, destaca. A criação de Institutos Virtuais e Redes de Compartilhamento de Informações em Pesquisa são apenas um dos Programas Especiais desenvolvidos pela FAPERJ. No Programa “Cientista do nosso Estado”, por exemplo, a FAPERJ fornece apoio ao pesquisador que está inovando na área de produtos e na área de desenvolvimento de patentes. Já o “Rio Inovação” é um programa destinado a empresas que possuam protótipos, produtos ou processos em fase final de desenvolvimento. Lima cita a Fiocruz como um dos principais parceiros na área de desenvolvimento científico no Rio de Janeiro.

-A FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) tem uma característica interessante: em um mesmo campus ela tem tanto pesquisa básica quanto empresas como Biomanguinhos, que produzem produtos finais para a saúde, como vacinas e diagnósticos. Ela também tem um setor de Gestão Tecnológica, a GESTEC, que cuida da Propriedade Intelectual e da transferência de tecnologia. As universidades, de uma maneira geral, não tem estrutura para atuar em todas estas frentes.

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"O Brasil já forma cerca de sete mil doutores por ano. A indústria tem que acordar para toda esta capacitação”

Jerson Lima

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O médico Carlos Morel concorda com Jerson Lima : ”O Brasil produz muito conhecimento mas tem grande dificuldade de transformá-lo em produto”, avalia. Para ele, a saúde não é apenas conseqüência do desenvolvimento de um país. Ela é fator fundamental de garantia de desenvolvimento “As origens da ciência brasileira e da própria FIOCRUZ são baseadas nas idéias de Louis Pasteur, que era adepto da pesquisa estratégica. Após a guerra houve uma mudança de pensamento que gerou a grande defasagem entre as patentes conquistadas pelo Brasil e as da Coréia por exemplo. Já está mais que na hora de retomarmos o processo de inovação”, alerta.

Jerson Lima lembra que o Brasil ocupa a décima sétima posição no ranking da produção científica mundial. Para ele, o país não pode perder este rumo”. O Brasil já forma cerca de sete mil doutores por ano. A indústria tem que acordar para toda esta capacitação”, alerta, lembrando que o Executivo e o Legislativo devem estar convencidos do importante papel da ciência na área da saúde. Para Jerson, é através da divulgação científica que a ciência pode se aproximar da sociedade. ”A Semana de Ciência e Tecnologia foi um esforço digno de aplauso. Espero que entre definitivamente no calendário do país”, opina.

-O país precisa de ações na área da ciência. O analfabetismo científico é bem amplo e atinge as mais diferentes classes sociais. Nós podemos perceber esta realidade também na grande imprensa. A mídia tem dificuldade de editar matérias científicas. Existem poucos profissionais especializados. É preciso que a população entenda que a pesquisa é importante.

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“A Lei de Inovação é uma excelente oportunidade de juntar quem tem conhecimento com quem tem interesse em chegar a um produto final”

Carlos Morel

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Para Carlos Morel, que já foi presidente da FIOCRUZ e foi diretor do TDR (Programa Especial de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais) na Organização Mundial da Saúde (OMS) na Suíça, é possível enviar mensagens de saúde diariamente para a população. “A novela é um importante canal de comunicação. Aos poucos os autores estão olhando para esta necessidade e debatendo assuntos de saúde pública, mas o cientista também tem que estar aberto para dialogar com a sociedade, participando de entrevistas e debates em jornais, rádios, TVs e internet”, o que concorda Jerson Lima. “É de responsabilidade de quem faz ciência divulgar e debater com a sociedade”, completa.

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“A Lei de Inovação traz grandes esperanças. A promoção de parcerias entre empresas privadas e Instituições de Pesquisa e Universidades é chave para o desenvolvimento da biotecnologia no país, junto com a atuação de capital de risco e investimentos do governo”

Wim Degrave

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Segundo o químico Wim Degrave, para se atender as necessidades de saúde da população é importante também a parceria com o setor privado:" A iniciativa privada tem que ter o seu papel no investimento na pesquisa aplicada, em parceria com o setor público, inclusive no desenvolvimento de medicamentos para populações de baixa renda." O que concorda Carlos Morel. ”A Lei de Inovação, que dispõe sobre incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica (www.mct.gov.br/Temas/Desenv/leideinovacao/anteprojeto01.htm) foi aprovada no Congresso Nacional e está em fase de regulamentação. É uma excelente oportunidade de juntar quem tem conhecimento com quem tem interesse em chegar a um produto final, mas não podemos esquecer a viabilidade comercial do produto. Carlos Morel explica: “no meu trabalho na TDR, na Organização Mundial de Saúde, quando a iniciativa privada se interessava por um projeto de desenvolvimento de um remédio, por exemplo, a condição número um para se começar a negociação era o estudo do custo final do medicamento. A parceria só era iniciada quando se chegava a um consenso de que o custo do medicamento a ser desenvolvido seria acessível para a população a que ele se destina “. Segundo Degrave,”A Lei de Inovação traz grandes esperanças. A promoção de parcerias entre empresas privadas e Instituições de Pesquisa e Universidades é chave para o desenvolvimento da biotecnologia no país, junto com a atuação de capital de risco e investimentos do governo. Temos idéias, potenciais produtos, capital humano ... Só falta uma conjuntura favorável”, opina.

 

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