Teoria da Evolução é destaque científico de 2005
Sexta-Feira 23 de Dezembro 2005 Fonte : Estadao.com.br

São Paulo - “É a evolução, estúpido!” Poderia começar assim a lista dos dez destaques científicos de 2005, formulada pelos editores da revista americana Science. A teoria elaborada por Charles Darwin foi considerada por eles a grande revelação do ano por ganhar nuances que o britânico nem imaginava existir quando publicou A Origem das Espécies, em 1859, além de outras que previa, mas que não tinha jeito para prová-las.

“Darwin focou na existência da evolução por seleção natural; os mecanismos que conduzem o processo eram um mistério completo para ele. Mas hoje seus descendentes intelectuais incluem todos os biólogos - estudem eles morfologia, comportamento ou genética - cuja pesquisa está ajudando a revelar como a evolução funciona”, indica o editorial.

Uma série de pesquisas que desvendam os mecanismos moleculares da evolução recebeu especial atenção de biólogos e do público em geral. Para a revista, a mais popular foi a publicação do genoma do chimpanzé, o primo mais próximo do homem.

Genes comuns

Ele comprovou o que cientistas já imaginavam - 96% dos genes são comuns -, mas mereceu destaque essencialmente por abrir caminho para a busca pelas diferenças, onde e como elas ocorreram, a fim de escrever capítulos em branco no livro da evolução humana. O trabalho, na realidade, começa agora.

Outro grande passo, também genético, foi a primeira versão do HapMap, um mapa de haplótipos humanos que busca padrões de variação genética entre raças diferentes, para encontrar (ou descartar) o efeito de genes em doenças comuns como diabete, artrite e desordens cardiovasculares.

“Meu favorito não é, nem de longe, o seqüenciamento do genoma do chimpanzé, mas o HapMap”, diz o geneticista brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago (EUA). “Ele nos dá uma noção ao mesmo tempo detalhada e em escala dos tipos de variações genéticas entre nós, quem as carrega e onde, no genoma. É o tipo de informação fundamental para aqueles que se aventuram a procurar quais mutações no genoma levam a doenças ou diferenças funcionais entre pessoas.”

Aves

Como nem só de laboratório se constrói uma teoria da evolução, a Science também destaca a observação da formação de novas espécies em diversos animais selvagens. Ela forneceu evidências empíricas da influência de mudanças no comportamento - compelida às vezes por mudanças genéticas - como o divisor de águas na escala evolutiva.

Uma espécie de ave que pousa mais cedo no destino migratório acasala mais cedo entre seus representantes, sem esperar os parceiros tradicionais que vêm de outros locais do planeta - o que pode levar ao surgimento de uma nova espécie no futuro. Mecanismo similar parece acontecer com lagartas que mudam seu hábito alimentar, alteram os feromônios que emitem e, por conseqüência, sua rotina sexual.

Nos Estados Unidos, Darwin também ganhou destaque em 2005 por causa de seus desafetos, os criacionistas. O ensino da evolução em alguns Estados americanos foi prejudicado por comitês que misturam crenças religiosas com evolução dos seres e surgimento do planeta.

Clonagem

Como era de se esperar, a Science não incluiu o primeiro trabalho de clonagem terapêutica, apresentado no primeiro semestre, na lista dos destaques do ano, assim como qualquer referência ao uso de células-tronco.

A própria revista está sendo obrigada a rever o artigo que publicou do sul-coreano Woo-Suk Hwang após denúncias de procedimentos antiéticos e resultados falsos virem à tona nas últimas semanas.

Para 2006, a revista aposta na busca por tratamentos para a gripe aviária, doença que atinge a Ásia e tem o potencial de se tornar uma pandemia. Ela pode surgir se o vírus sofrer mutações, evoluindo e seguindo os passos previstos por Darwin, até formar um tipo letal e transmissível entre humanos.


Cristina Amorim
Enviar este clipping por Email Imprimir este clipping