DIAGNÓSTICO DA FIBROSE CÍSTICA

A despeito dos vigorosos tratamentos antimicrobianos e da terapia física, a Fibrose Cística (FC) ainda é uma doença letal, cuja expectativa de sobrevivência até poucos anos atrás variava entre os 25 e 30 anos. Abordagens clínicas e moleculares se combinam com a finalidade de atingir uma melhor compreensão da fisiopatologia e da bioquímica da FC com vistas ao desenvolvimento de um tratamento que recupere a expressão correta do gene ou que regule o sistema de transporte de íons. Embora grandes avanços tenham sido alcançados, o tratamento da FC através da terapia genética ainda não foi alcançado e o tratamento pré-sintomático, com o fim de adiar as infecções pulmonares, bem como controlar as deficiências enzimáticas, são ainda os mais indicados.

O diagnóstico precoce tem se mostrado um fator determinante na eficácia do tratamento, contribuindo para melhorar a qualidade de vida e a sobrevida do paciente. O diagnóstico da FC se baseia em achados clínicos clássicos, ou seja, manifestações pulmonares e/ou gastrointestinais típicas, história de casos de FC na família e demonstração de níveis elevados de sódio e cloro no suor (Teste do Suor - TS). O método padrão para o TS consiste na estimulação da produção de suor pela pilocarpina, que é colocada sobre a pele ou diretamente nas glândulas sudoríparas usando um gradiente de potencial (iontoforese) e análise da concentração dos íons sódio e cloro.

O diagnóstico molecular se baseia na análise das mutações, cuja maioria é particular em populações específicas ou grupos étnicos, fator que contribui para a diminuição da sensibilidade de detecção como um método de diagnóstico de rotina, uma vez que a análise molecular é baseada nas mutações mais comuns em populações européias. Em função disso é aconselhável que sejam analisados o maior número de mutações disponíveis, levando-se em conta o perfil mutacional de cada população.

O rastreamento neonatal tem sido assunto de discussão e um dilema na comunidade médica nos últimos dez anos. Porém, como o diagnóstico e o tratamento sintomático precoce influem no prognóstico final, parece lógico a realização do rastreamento neonatal, que foi recentemente recomendado pelo Ministério da Saúde através da dosagem da tripsina imuno-reativa (Immuno-reactive trypsin - IRT).

Porém, o IRT tem suscitado muitas controvérsias devido às taxas de falsos positivos (0.5%) e falsos negativos (até 20%), além de ter a desvantagem de que a concentração do tripsinogênio começa a declinar em poucas semanas após o nascimento, tornando-se um método de diagnóstico restrito aos dois primeiros meses de vida.

A acuidade do rastreamento neonatal pelo teste de IRT pode ser aumentada, combinando-se a este a genotipagem naqueles recém-nascidos que apresentarem IRT alterada, de maneira a identificar pelo menos a mutação mais comum, a mutação DF508.

Como a maioria das doenças genéticas, o conhecimento do público sobre as bases genéricas, o curso e o prognóstico da Fibrose Cística é praticamente inexistente. Entre aqueles que já ouviram falar sobre FC, impressões inadequadas todavia existem porque as pessoas em geral não estão familiarizadas com os progressos no tratamento e no diagnóstico da doença. O entendimento dos testes genéticos da FC, como de outras doenças genéticas, envolve conceitos complexos tais como sensibilidade do teste, status do portador, padrões de herança, risco e probabilidade, correlação genótipo-fenótipo. Este gap da compreensão pública sugere que programas de testes genéticos devem incluir textos sobre consentimento informado e componentes educacionais e de aconselhamento.

Giselda MK Cabello, MSc.
Responsável pelo Projeto Fibrose Cística
Laboratório de Genética Humana
Departamento de Genética/IOC/FIOCRUZ

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