Questões mais atuais

No que concerne aos rumos intelectuais dos objetos de interesse para o estudo e construções teóricas atuais da Antropologia Social, o individualismo; a fragmentação; a alta especialização técnica e a dificuldade de se articular níveis distintos de relações qualitativas e quantitativas entre os fenômenos, no modo globalizado hegemônico de pensar, são os problemas mais enfatizados (cf. Dumont, 1985; Duarte, 1998). Conceitos como “disembeddeness”; “embodiment” e “reflexivity” são importantes para o que, na Epidemiologia, se considera característico da “sociedade de risco”, como podemos chamar o capitalismo global da modernidade tardia. Deborah Lupton (1999) faz uma interessante síntese dos conceitos e análises sócio-políticas e culturais na pós-modernidade e atualmente, aplicados à noção de Saúde Pública de “sociedade de risco” e subjetividade “reflexiva”, onde as escolhas individuais são predominantemente privilegiadas para a prevenção e controle do risco de adoecimento e morte.

Para o que nos interessa neste site, a questão do genoma e da genética passa por questões tanto de ordem biológica quanto culturais e éticas. A “Nova Genética”, conforme reflexão de Petersen e Bunton (2002), na modernidade tardia de nossa sociedade capitalista global, poderia estar, enquanto técnica (engenharia) aplicada dos conhecimentos científicos da biologia e genética, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida humana, prevenindo doenças e evitando riscos, ou criando, em uma reedição individualista (i.e., não imposta pelos estados-nações, já bastante enfraquecidos com o neoliberalismo; a abertura dos mercados internacionais e a enorme amplitude via Internet da circulação de informações), uma nova diferença e eugenia?

Assim como, na antropologia física, ainda subsistem noções mais ligadas ao conceito de “tipo racial” (Ventura dos Santos, op. cit.: 132-137), e na antropologia social (ou cultural) até recentemente, ainda se encontravam bastantes influências de idéias evolucionistas; positivistas e de cunho comportamentalista, a Nova Genética pode estar, sob o argumento de uma aposta no futuro “positivo” para a prevenção e controle de doenças herdadas, construindo novas identidades de sociedade, grupos e indivíduos “inferiores”; de “risco” , baseadas inclusive em diferenças biológicas. Desta vez, não da cor da pele, mas da herança genética.

Outras questões, como as patentes de organismos geneticamente modificados (OGM), sejam sementes agrícolas; sejam híbridos animais ou embriões humanos clonados, iriam tornar-los, com o uso médico terapêutico, mais uma forma de criar consumo e lucro. Neste campo, as lutas sócio-econômicas e bioéticas ganham novo papel no contexto global. Os debates são atuais e estão abertos aos rumos da história.


Cibele Verani,
NESPISI/ENSP/Fiocruz